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Astronomia amadora a partir do Alentejo, sob um dos céus mais escuros da Europa

Saturno e os seus anéis fotografados pela sonda Cassini
Observar o céu

Observar Júpiter, Saturno e os outros planetas com um pequeno telescópio

Os planetas são pequenos e brilhantes, e a atmosfera faz-os tremer. Mas quem espera pelos segundos de calma vê bandas em Júpiter, a divisão de Cassini nos anéis de Saturno e as fases de Vénus.

Marta Sequeira5 min de leituraAtualizado a

Encontrar um planeta é fácil: são os «pontos» mais brilhantes que não cintilam como as estrelas. O desafio está no que vem depois — extrair pormenor de um disco que, mesmo a 150 aumentos, parece do tamanho de uma ervilha vista ao fundo do corredor.

Como distinguir um planeta de uma estrela

Os planetas deslocam-se ao longo da eclíptica, a faixa do céu por onde passam o Sol e a Lua, atravessando as constelações do zodíaco. A olho nu, a pista mais útil é a cintilação: as estrelas são pontos e tremem com a turbulência do ar; os planetas têm um pequeno disco e brilham com luz mais estável, sobretudo quando estão altos. Vénus é inconfundível — o objeto mais brilhante do céu depois do Sol e da Lua, sempre perto do Sol, ao anoitecer ou antes do amanhecer.

O painel «Céu desta noite» na nossa página inicial calcula, para Évora, que planetas estão visíveis e em que direção. A melhor altura para observar um planeta exterior é perto da oposição, quando a Terra passa entre ele e o Sol: fica no céu a noite toda, está mais próximo e mais brilhante. Saturno chega à oposição no início de outubro de 2026, e Júpiter começa a subir no céu da madrugada.

Júpiter: bandas, manchas e luas que dançam

Júpiter é o planeta mais gratificante. Mesmo um telescópio de 70 mm mostra as duas bandas equatoriais escuras e as quatro luas galileanas — Io, Europa, Ganimedes e Calisto — cuja posição muda de hora para hora. Com 150 mm ou mais e uma noite estável aparecem festões azulados, barras escuras e, quando está voltada para nós, a Grande Mancha Vermelha, hoje mais pálida e mais pequena do que há décadas.

Júpiter roda sobre si próprio em menos de dez horas. Observe durante uma hora e verá os pormenores deslocarem-se do centro para o bordo. Os trânsitos das luas — quando uma delas passa à frente do planeta e projeta uma sombra negra e nítida — são dos espetáculos mais bonitos ao alcance de um amador.

Júpiter com as suas bandas de nuvens e a lua Io em primeiro plano, imagem da sonda Juno
Imagem de sonda: ao telescópio, Júpiter é muito mais pequeno, mas as bandas e as luas são visíveis desde as primeiras noites.

Saturno: o planeta que arranca exclamações

Ninguém esquece a primeira vez que vê Saturno. A 40 aumentos os anéis já estão lá, nítidos, como num desenho. Com 100x ou mais distingue-se a divisão de Cassini, um intervalo escuro entre os anéis A e B, a sombra do planeta sobre os anéis e a lua Titã, um ponto alaranjado a alguns diâmetros do planeta.

Em 2025, os anéis ficaram de perfil em relação à Terra e praticamente desapareceram nos telescópios pequenos. Em 2026 começam a abrir de novo, ainda estreitos, o que dá a Saturno um aspeto invulgar — uma boa oportunidade para comparar com fotografias de anos anteriores e perceber que o planeta, visto daqui, muda de ano para ano.

O céu português permite observar todos os planetas; o que muda é a altura acima do horizonte.
PlanetaO que um telescópio de 100–150 mm mostraMelhor ampliação típica
MercúrioFase, apenas perto do horizonte e no crepúsculo80–120x
VénusFases como a Lua; crescente espetacular perto da conjunção inferior60–120x
MarteCalotes polares e manchas escuras, só perto da oposição150–250x
JúpiterBandas, Grande Mancha Vermelha, quatro luas e as suas sombras120–200x
SaturnoAnéis, divisão de Cassini, sombra, Titã e outras luas100–200x
Urano e NeptunoPequenos discos azul-esverdeados, sem pormenor100–150x

Seeing: o fator que não controla

A turbulência atmosférica — o seeing — decide mais do que o telescópio. Em noites de vento em altitude, a imagem ferve e nenhuma ampliação ajuda. Paradoxalmente, as noites ligeiramente enevoadas e calmas do interior alentejano dão muitas vezes as melhores imagens planetárias, mesmo quando as estrelas ténues estão apagadas.

Deixe o telescópio arrefecer, evite observar por cima de telhados aquecidos e prefira os planetas quando estão acima de 30 graus de altura. Filtros coloridos baratos ajudam pouco; um filtro amarelo-claro pode realçar as bandas de Júpiter, mas a experiência conta muito mais.

Crianças e adultos a observar através de telescópios numa sessão pública ao ar livre
Sessões públicas de observação: a forma mais rápida de ver Saturno através de vários telescópios na mesma noite.

Plano para uma noite planetária

  • Confirmar no painel «Céu desta noite» que planetas estão acima do horizonte.
  • Pôr o telescópio lá fora 30 a 45 minutos antes de observar.
  • Começar a baixa ampliação e subir até a imagem deixar de melhorar.
  • Observar cada planeta pelo menos dez minutos seguidos.
  • Anotar a hora e desenhar as posições das luas de Júpiter.

Perguntas frequentes

Porque é que os planetas parecem tão pequenos ao telescópio?

Porque o são: Júpiter, no seu melhor, tem 47 segundos de arco, cerca de 1/40 do diâmetro da Lua. A 100x fica com o tamanho aparente de uma Lua cheia vista a olho nu.

Consigo ver cores em Marte?

Sim, um tom alaranjado e, perto da oposição, manchas escuras e a calote polar branca. A próxima oposição favorável de Marte é no início de 2027.

Qual é o planeta mais fácil para começar?

Júpiter ou Saturno. Júpiter pelo movimento das luas, Saturno pelo impacto dos anéis. Ambos são visíveis com qualquer telescópio.

Retrato ilustrativo de Marta Sequeira

Marta Sequeira

Divulgação e fenómenos

Professora de Ciências e observadora de meteoros, envia contagens à International Meteor Organization desde 2015. Escreve sobre planetas, chuvas de meteoros e eclipses.

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