O eclipse de 12 de agosto de 2026, visto em Portugal continental como um eclipse parcial muito profundo, levou milhares de pessoas a olhar para o Sol. Felizmente, a maioria usou óculos adequados. Este guia resume o que aprendemos nas sessões públicas que acompanhámos e serve para qualquer observação solar, com ou sem eclipse.
Porque é tão perigoso
A retina não tem recetores de dor. Uma queimadura solar da retina — a retinopatia solar — não se sente no momento; os sintomas, como uma mancha escura ou distorção no centro da visão, aparecem horas depois e podem ser permanentes. A luz visível intensa e a radiação infravermelha concentradas pelo cristalino destroem as células da fóvea, a zona responsável pela visão de pormenor.
Através de um telescópio ou binóculos sem filtro, o risco multiplica-se: um instrumento de 100 mm concentra cerca de 200 vezes mais luz do que a pupila. A lesão é praticamente instantânea. Durante um eclipse parcial o perigo é o mesmo — a pequena parte do Sol que continua visível é tão brilhante como o Sol inteiro, por unidade de área.
Filtros seguros: o que procurar
Os óculos de eclipse e os visores manuais devem cumprir a norma ISO 12312-2 e vir de um fabricante identificado. Antes de cada uso, verifique se o filtro não tem riscos, furos ou dobras — coloque-o contra uma lâmpada: não deve ver nada além, talvez, do filamento muito ténue. Guarde-os num envelope rígido e descarte-os se estiverem danificados.
Para telescópios e binóculos, o filtro coloca-se sempre à frente da objetiva, nunca junto à ocular. Os filtros de película solar (tipo folha de polímero aluminizado) e os de vidro com revestimento metálico dão imagens brancas ou alaranjadas, seguras e nítidas. Os pequenos filtros «solares» enroscados na ocular, que vinham em alguns telescópios antigos, podem estalar com o calor em segundos: deite-os fora.
| Método | Segurança | Para quê | Notas |
|---|---|---|---|
| Óculos ISO 12312-2 | Seguro se intacto | Eclipses e Sol a olho nu | Baratos; não usar com instrumentos |
| Filtro de película na objetiva | Seguro se bem fixo | Manchas solares ao telescópio | Fixar com fita para o vento não o soltar |
| Projeção solar | Seguro para quem vê o ecrã | Grupos, escolas | Só com refratores ou binóculos simples |
| Telescópio H-alfa dedicado | Seguro (instrumento próprio) | Protuberâncias e filamentos | Caro; mostra a cromosfera |
| Filtro de ocular | Perigoso | — | Pode partir com o calor concentrado |

Projeção: a forma mais simples de partilhar
A projeção é ideal para grupos e crianças: ninguém olha diretamente. Aponte um pequeno refrator ou binóculos para o Sol, sem olhar pela ocular, guiando-se pela sombra do tubo no chão — quando a sombra fica mínima e redonda, está alinhado. Segure um cartão branco a 30–50 cm da ocular e ajuste a focagem até o disco solar ficar nítido. As manchas solares aparecem como pontos escuros bem definidos.
Não use telescópios catadióptricos nem oculares com partes coladas em projeção: o calor concentrado pode danificá-los. E tape sempre a outra metade dos binóculos e o buscador do telescópio — um buscador destapado queima roupa e pele em segundos.


Regras para sessões públicas e com crianças
- Um adulto responsável junto de cada telescópio em todo o momento.
- Filtros verificados antes da sessão e fixados com fita adesiva.
- Buscadores retirados ou tapados com a tampa original.
- Nunca deixar um telescópio apontado ao Sol sem vigilância.
- Explicar às crianças, antes de começar, que só se olha pelo instrumento que o monitor indicar.
- Ter óculos de eclipse de reserva para quem chega sem eles.
Em caso de exposição acidental, não espere: marque uma consulta de oftalmologia e explique o que aconteceu. Não há tratamento que reverta totalmente a lesão, mas o acompanhamento é importante.
Os próximos eclipses visíveis em Portugal
No dia 2 de agosto de 2027, a faixa de totalidade de um longo eclipse total do Sol passa pelo sul de Espanha e pelo norte de África; em Portugal continental será um eclipse parcial muito profundo, sobretudo no Algarve. A 26 de janeiro de 2028, um eclipse anular atravessa a Península Ibérica ao fim da tarde. São duas excelentes oportunidades — desde que se preparem os filtros com antecedência.
Perguntas frequentes
Posso olhar para o Sol ao pôr do Sol?
Quando está muito baixo e atenuado pela atmosfera, a luz é menos intensa, mas continua a não ser recomendável fixá-lo. Nunca o faça com binóculos ou telescópio.
Os óculos de eclipse têm prazo de validade?
Não, se cumprirem a norma ISO 12312-2 e estiverem intactos. Os avisos antigos de «três anos» já não se aplicam aos filtros certificados.
O telemóvel pode fotografar o Sol sem filtro?
Uma fotografia rápida não costuma danificar o sensor, mas olhar para o ecrã ao lado do Sol leva muitas pessoas a olhar diretamente. Use um filtro solar também à frente da lente.
Durante a totalidade de um eclipse posso tirar os óculos?
Só durante a fase total, quando o Sol fica completamente tapado. Em Portugal, nos eclipses de 2026 e 2027, não há totalidade: os óculos ficam sempre postos.



