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Astronomia amadora a partir do Alentejo, sob um dos céus mais escuros da Europa

Pessoa num rochedo a observar a Via Láctea durante a chuva de meteoros das Perseidas
Fenómenos e eventos

Chuvas de meteoros: calendário anual e técnica para ver mais estrelas cadentes

As estrelas cadentes são o fenómeno astronómico mais democrático: não precisam de telescópio, nem de binóculos, nem de conhecimentos prévios. Precisam de céu escuro, paciência e de saber para onde — e quando — olhar.

Marta Sequeira5 min de leituraAtualizado a

Uma estrela cadente é um grão de poeira, muitas vezes do tamanho de um grão de areia, que entra na atmosfera a dezenas de quilómetros por segundo e se vaporiza a cerca de 100 km de altitude. Em qualquer noite escura veem-se alguns por hora. Nas chuvas de meteoros, esse número multiplica-se — e há noites em que o céu parece chover luz.

De onde vêm as chuvas de meteoros

Os cometas, ao aproximarem-se do Sol, libertam poeira que se espalha ao longo da sua órbita. Quando a Terra atravessa esse rasto, todos os anos na mesma data, os grãos entram na atmosfera em trajetórias paralelas. Por efeito de perspetiva — o mesmo que faz os carris do comboio convergirem no horizonte — os meteoros parecem partir de um mesmo ponto do céu, o radiante. É a constelação onde está o radiante que dá o nome à chuva: as Perseidas vêm de Perseu, as Gemínidas de Gémeos.

As Perseidas são restos do cometa 109P/Swift-Tuttle; as Oriónidas e as Eta Aquáridas, do famoso cometa Halley. As Gemínidas são uma exceção curiosa: nascem de um asteroide, o 3200 Faetonte, e são hoje a chuva mais intensa do ano.

Calendário das principais chuvas

THZ: taxa horária zenital teórica. As datas variam um dia de ano para ano.
ChuvaPico aproximadoTHZNotas para Portugal
Quadrântidas3–4 de janeiro80–120Pico curto de poucas horas; radiante baixo ao início da noite
Líridas22–23 de abril18Meteoros rápidos; ocasionalmente surpreendem
Eta Aquáridas5–6 de maio40–50Só de madrugada; melhor em latitudes mais a sul
Perseidas12–13 de agosto100A mais popular: noites quentes e muitos bólides
Dracónidas8–9 de outubro10Melhor ao anoitecer; anos de surtos imprevisíveis
Oriónidas21–22 de outubro20Poeira do cometa Halley, depois da meia-noite
Leónidas17–18 de novembro15Meteoros muito rápidos
Gemínidas13–14 de dezembro120–150A mais intensa; visível desde o fim da tarde

O painel «Céu desta noite» na página inicial mostra a contagem decrescente para a próxima chuva e a percentagem da Lua iluminada no pico — o fator que mais condiciona o que vai ver.

O que significa a taxa horária zenital

A THZ é o número de meteoros que um observador veria numa hora se o radiante estivesse no zénite e o céu fosse perfeitamente escuro, com estrelas visíveis até à magnitude 6,5. É uma referência teórica, raramente atingida. Com o radiante a 40 graus de altura, veem-se cerca de dois terços da THZ; num céu suburbano, onde apenas se veem estrelas até à magnitude 5, o número cai para menos de um terço.

Por isso, a mesma chuva pode ser espetacular no Alqueva e dececionante numa varanda de Lisboa. A diferença não está no céu: está na luz que o apaga.

Vários meteoros das Perseidas a riscar o céu sobre um horizonte com aurora
Várias exposições combinadas: numa noite real, os meteoros aparecem um a um, de forma imprevisível.

Técnica de observação

Esqueça o telescópio e os binóculos: o campo de visão é demasiado pequeno. O instrumento ideal é o olho nu, deitado numa cadeira reclinável, com o maior pedaço de céu possível à frente. Não olhe diretamente para o radiante — os meteoros próximos dele têm rastos curtos. Aponte o olhar a 40–50 graus de distância e a meia altura do céu.

A melhor hora é quase sempre depois da meia-noite. Nessa altura, o nosso lado da Terra está virado para a frente no movimento orbital, como o para-brisas de um carro em andamento, e «apanha» mais partículas. Entre as 2 e as 5 da manhã, as taxas podem duplicar em relação ao início da noite.

Fotografar estrelas cadentes

A técnica é simples mas exige volume: câmara num tripé, objetiva grande-angular, ISO 3200 a 6400, exposições de 15 a 25 segundos e o intervalómetro a disparar sem parar durante horas. Em cada cem fotografias, poucas terão um meteoro, e quase sempre será um dos brilhantes. Aponte a câmara a cerca de 45 graus do radiante e inclua algum horizonte para dar escala.

Dois pequenos meteoros das Perseidas sobre árvores e um céu rosado
Mesmo meteoros ténues ficam registados — mas só uma pequena parte dos disparos apanha algum.
Pessoas com lanternas vermelhas a observar a Via Láctea num prado escuro
Observar em grupo, com luz vermelha, torna as longas esperas muito mais agradáveis.

Preparar a noite

  • Verificar a fase da Lua no pico: acima de 50% de iluminação, espere metade dos meteoros.
  • Escolher um local com horizonte largo e longe de iluminação direta.
  • Levar agasalho, manta e cadeira reclinável — vai estar parado durante horas.
  • Chegar cedo e esperar 20 minutos pela adaptação ao escuro.
  • Guardar o telemóvel ou usar o ecrã em modo vermelho no brilho mínimo.

Uma última sugestão: observe em grupo e dividam o céu. Cada pessoa vigia uma direção e avisa quando vê um meteoro brilhante. As conversas em voz baixa, a partilha de chá quente e os gritos de espanto quando um bólide atravessa o céu são parte da experiência.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre meteoro, meteoroide e meteorito?

O meteoroide é a partícula no espaço; o meteoro é o risco de luz na atmosfera; o meteorito é o fragmento que chega ao solo, o que é raro nas chuvas anuais.

Um bólide é perigoso?

Não. Os bólides são meteoros muito brilhantes, mais brilhantes do que Vénus, produzidos por partículas maiores. Quase todos se desintegram na alta atmosfera.

Consigo ver as Perseidas a partir da cidade?

Verá algumas, sobretudo as mais brilhantes, mas uma fração muito pequena da atividade real. Sair da cidade faz toda a diferença.

Retrato ilustrativo de Marta Sequeira

Marta Sequeira

Divulgação e fenómenos

Professora de Ciências e observadora de meteoros, envia contagens à International Meteor Organization desde 2015. Escreve sobre planetas, chuvas de meteoros e eclipses.

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