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Astronomia amadora a partir do Alentejo, sob um dos céus mais escuros da Europa

Luzes de uma cidade vistas de um monte à noite com o céu alaranjado pelo brilho artificial
Fenómenos e eventos

Poluição luminosa: como medir o céu da sua rua e ajudar a devolver as estrelas

Mais de um terço da humanidade já não consegue ver a Via Láctea a partir de casa. A poluição luminosa é a forma de poluição mais fácil de reverter — basta desligar ou redirecionar a luz — e começa a ser discutida em Portugal.

Rui Valadas5 min de leituraAtualizado a

A poluição luminosa é luz artificial que vai para onde não é precisa: para o céu, para dentro das janelas dos vizinhos, para os olhos de quem conduz. Não é apenas um problema de astrónomos. Desperdiça energia, altera o comportamento de aves, insetos e morcegos, e perturba o nosso próprio ciclo de sono.

As três faces do problema

O brilho do céu é o halo difuso que se forma sobre as povoações quando a luz enviada para cima é dispersa pelas partículas do ar. É ele que apaga as estrelas ténues e dá ao céu urbano aquele tom alaranjado ou acinzentado. O encandeamento é a luz intensa que entra diretamente nos olhos e reduz a visibilidade, paradoxalmente tornando as ruas menos seguras. A luz intrusa é a que invade espaços onde não é desejada — o quarto iluminado pelo candeeiro da rua, por exemplo.

A transição para iluminação LED trouxe poupança energética, mas também um risco: muitas luminárias instaladas emitem luz branca-azulada, com temperaturas de cor de 4000 K ou mais, que se dispersa mais na atmosfera e tem maior impacto biológico. As luzes âmbar e quentes, abaixo de 3000 K, são muito menos prejudiciais.

Via Láctea alaranjada e densa de estrelas num céu sem poluição luminosa
Sob um céu natural, a Via Láctea mostra cor e estrutura; nas cidades desaparece por completo.

Como medir o céu da sua rua

A forma mais simples é a escala de Bortle, criada pelo astrónomo amador John Bortle em 2001. Vai de 1 (céu perfeitamente escuro) a 9 (centro de uma grande cidade) e baseia-se no que se consegue ver a olho nu. Outra forma acessível é contar as estrelas visíveis dentro de uma constelação conhecida, como Orionte no inverno, e comparar com cartas de referência — é o método de campanhas internacionais de ciência cidadã como a Globe at Night.

Para medições objetivas usa-se um SQM (Sky Quality Meter), um pequeno fotómetro que mede o brilho do céu em magnitudes por segundo de arco quadrado. Quanto maior o número, mais escuro o céu. Um SQM custa cerca de 150 euros, mas vários clubes de astronomia emprestam-nos para campanhas de medição.

Valores indicativos; a transparência do ar e a altura do ano alteram as leituras.
Classe de BortleLeitura SQM típicaO que se vêExemplo na região
221,7–21,9Via Láctea com estrutura, luz zodiacal evidenteMargens do Alqueva em noite sem Lua
420,5–21,0Via Láctea visível mas sem pormenor junto ao horizonteAldeias alentejanas afastadas
5–619,0–20,3Via Láctea só no zénite ou invisívelPeriferia de Évora
7–818,0–19,0Apenas as constelações principaisCentro de Évora e de cidades médias
9abaixo de 18Poucas dezenas de estrelasBaixa de Lisboa
Rastos de estrelas sobre um observatório de montanha com o brilho de cidades no horizonte
O brilho de cidades a dezenas de quilómetros é visível nas exposições longas, mesmo em montanha.

Impactos na natureza e na saúde

Muitos insetos noturnos são atraídos pelas luzes e morrem de exaustão à sua volta; as luminárias brancas atraem muito mais do que as âmbar. Aves migratórias, que se orientam pelas estrelas, desviam-se para zonas iluminadas. Tartarugas marinhas recém-nascidas, em praias de outros países, dirigem-se para as luzes da costa em vez de para o mar. E nos seres humanos, a exposição à luz azul durante a noite atrasa a produção de melatonina, com efeitos no sono.

O que cada pessoa pode fazer

  • Trocar lâmpadas exteriores por modelos de 2700 K ou menos.
  • Instalar luminárias com proteção superior, que não emitem luz acima da horizontal.
  • Usar sensores de movimento em vez de luzes acesas toda a noite.
  • Fechar estores e cortinas à noite para não iluminar o exterior.
  • Participar em campanhas de contagem de estrelas e partilhar os resultados.
  • Levar o tema às assembleias de freguesia quando se renova a iluminação pública.

O exemplo do Alqueva mostra que funciona: com a substituição de luminárias e regras simples, é possível manter a segurança nas vilas e, ao mesmo tempo, preservar um céu que atrai visitantes de todo o mundo.

Rastos de estrelas sobre as cúpulas de um observatório com o brilho de uma cidade no horizonte
Mesmo em observatórios de montanha, o brilho das cidades distantes é visível no horizonte.

Um problema que cresce — e que se resolve

Em Portugal, a questão ganhou visibilidade com a certificação do Alqueva e com projetos de ciência cidadã em escolas, onde os alunos medem o brilho do céu no recreio e comparam resultados entre cidades. Alguns municípios já incluem critérios de temperatura de cor e de orientação das luminárias nos cadernos de encargos da iluminação pública. São passos pequenos, mas que mostram um caminho possível e barato.

Estudos baseados em contagens de cidadãos indicam que o brilho do céu tem aumentado cerca de 10% por ano em muitas regiões. Ao contrário de outras formas de poluição, porém, esta desaparece no instante em que se desliga a fonte. Não há resíduos a limpar nem décadas de espera. É uma boa notícia — e um bom motivo para começar hoje, pelo candeeiro do próprio quintal.

Perguntas frequentes

A poluição luminosa afeta quem não faz astronomia?

Sim: desperdiça energia paga por todos, perturba o sono e a vida selvagem e pode reduzir a segurança rodoviária devido ao encandeamento.

Menos luz nas ruas significa mais insegurança?

Não necessariamente. Luz bem dirigida e sem encandeamento melhora a visibilidade; excesso de luz cria sombras profundas e contrastes que dificultam a visão.

Como sei a classe de Bortle da minha zona?

Compare o que vê com a descrição da escala numa noite sem Lua, ou consulte mapas de brilho do céu baseados em dados de satélite.

Retrato ilustrativo de Rui Valadas

Rui Valadas

Guia de céu escuro

Guia certificado de turismo astronómico na região do Alqueva e defensor ativo da iluminação responsável. Mede o brilho do céu alentejano com um SQM desde 2014.

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